sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Criação de Toiros (2)- Ganadarias com 150 anos

Existem duas Ganadarias com mais de 150 anos, que por esse facto e porque ao longo de todos estes anos têm mantido o prestígio alcançado desde a sua apresentação até à actualidade, assumem um lugar de destaque na criação do Toiro de Lide.
Uma portuguesa que foi fundada por António José Pereira Palha no ano de 1846.
Outra espanhola que foi fundada em 1842, por Juan António Miura.
A Ganadaria Palha Blanco, foi fundada a partir de vacas adquiridas pelo Lavrador português a alguns daqueles que tinham adquirido em Hasta publica os bens e terras do Infantado. A José Veloso Horta, ao Marquês de Belas, ao Estêvão de Oliveira e a Sousa Falcão. A sua mais remota origem é assim duma proveniência de Vicente Vasquez, o grande ganadero andaluz que chegou a ter um manada de mais de 5.000 vacas. Foi o Rei Fernando VII, que adquiriu uma boa parte destas vacas, depois da morte de Vasquez e ofereceu uma parte delas ao Rei português D. Miguel . Foi a fundação da ganadaria do Infantado, que posteriormente e da forma que relatamos iniciou a Ganadaria Palha Blanco.
A foto que apresentamos é de José Pereira Palha, filho do fundador da ganadaria Palha Blanco e que foi uma ilustração da revista La Lídia.
A ganadaria de Miura, foi fundada por um capricho. Juan Miura era um fabricante de «sombreros» e investiu as suas poupanças na aquisição de vacas bravas para dar satisfação a um sonho de seu filho Eduardo. A família Miura não tinha qualquer ligação ao campo antes da aquisição da ganadaria.
Essas vacas compradas a vários, no ano em que morreu Juan Miura totalizavam já 1.500 animais reprodutores. Todas com origem na ganadaria dos irmãos Galhardo, que no ano de 1792 já corriam toiros em Madrid.
As vacas dos Galhardo, tinham a curiosa origem Cartujana. Efectivamente os monjes cartujanos foram pioneiros na criação e selecção do toiro bravo na Andaluzia e dessa sua acção deriva o encaste Galhardo.
Os toiros Miura são legendas da tauromaquia, sobretudo pelos dramas que protagonizaram. Dizia o grande Matador Pepe Luís Vasquez “ a questão não é de ser a ganadaria que provocou mais mortes…mas a ter sido aquela que matou grandes figuras “
Efectivamente os dramas provocados por toiros Miuras começam no ano de 1962 em Madrid, quando de uma cornada do toiro de nome Jocinero, morre o grande “ Pepete”, que era tio avô de Manolete que Islero vitimou em 1947. Outro grande nome, Domingo Dominguin, tinha sucumbido por ferimentos de “Desertor”, no ano de 1900.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Alexandre VI- O Papa Aficionado


Existem dois momentos no final da Idade Média que são «marcos» determinantes da evolução do toureio e das toiradas em Espanha.
O primeiro é protagonizado pelo Mouro Gazul no tempo do Rei Boabdil, também chamado o «Rei Chico» e que foi ultimo dominador muçulmano da Al Andaluzia, derrotado na Guerra de Granada, pelos Reis Católicos em 1492.
O Mouro Gazul foi o primeiro a «lancear» toiros em regra, tal como ilustrou Goya nas suas gravuras da história da Tauromaquia. Ou seja, os mouros do reino de Granada adoptavam os hábitos peninsulares de lidar toiros .
Nos festejos Medievais os toiros eram introduzidos num recinto onde os vários cavaleiros sem grande «regra» e apenas numa demonstração de valentia, tentavam matar o animal selvagem. Agora com Gazul, entrava em praça apenas um cavaleiro com lança e era ele que devia receber as investidas do toiro e com a sua lança provocar a sua morte. Era já apoiado por peões, que faziam os «quites» ao toiro quando este feria ou provocava o derrube do cavaleiro.
O segundo momento particularmente da evolução tauromáquica é o da substituição da «lança» pela «Garrocha ou Vara».
Decorre da alteração da mentalidade da Idade Média e da influência renascentista. Acontece portanto nos finais do século XV.
O primeiro a usar esta nova forma de dominar os toiros é o Marquês de la Algaba. Ele introduz simultaneamente uma competição entre dois cavaleiros ( Picadores ).
Existem inúmeros relatos destas competições do Marquês de la Algaba com Pedro de Medicis, em festejos em Espanha e em Itália.
Em Itália porque o Papa Alexandre VI, cujo nome era Rodrigo Borgia ( o que foi descrito por Maquiavel, no Príncipe ) tinha nascido na Navarra e seu filho César Borgia, que foi Bispo de Valência, teria sido também um lidador de toiros.
Ficaram nos registos da história do Vaticano, essas Toiradas realizadas em Roma, como comemoração da sua libertação após a vitória sobre Carlos VII de França que tinha invadido Italia, tomado a capital e feito guerra aos Borgias.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A 1ª Proibição de Corridas de Toiros


Aconteceu numa comemoração de um facto de grande relevância para a História de Portugal e de Espanha. Os reinos de Castela e Aragão tinham sido unificados através do casamento de Isabel e Fernando, os Reis Católicos.

Em Portugal reinava D. João II, que subjugara os poderes feudais à sua jurisdição.

O acordo do casamento de D. Afonso de Portugal, filho primogénito do Rei, com a Infanta Isabel filha dos Reis Católicos previa a unificação Peninsular.

Esse casamento e os seus festejos foram marcados, naquele ano de 1490, para Segóvia e seriam os mais faustosos de sempre.
A Rainha decretou então que nessas festas não teriam lugar Corridas de Toiros.
Sabe-se que esta determinação não agradou ao povo e que serviu mesmo de estímulo para uma intensificação do número de festas taurinas noutros lugares de Espanha.
Foi com o Imperador Carlos V, que a Festa dos toiros alcançou grande expressão. Ele próprio era um grande aficionado da actividade de lancear toiros a cavalo, tal como o seu contemporâneo português o Rei D. Sebastião. Todos os fidalgos de então adoptaram estas práticas e o Imperador chegou a classifica-las como a mais útil forma de manter activos e preparados os guerreiros em tempo de paz. Em todos os reinados dos da Casa de Áustria, as festas de rua e em recinto fechado com toiros tiveram uma enorme expressão, quer em Espanha quer em Portugal, que nessa época viviam sobre a mesma Coroa.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Desafio do Blog nº 1 - Resposta


A primeira figura que apresentamos no passatempo deste blog, foi uma das mais importantes figuras da tauromaquia portuguesa e ficará sempre num lugar de grande destaque na História Mundial das Touradas.
Simão da Veiga Jr.
Uma longa carreira de cavaleiro tauromáquico, em Portugal, em Espanha, em França e no México. Iniciada na sua terra natal Montemor o Novo em Setembro de 1915, quando tinha apenas 12 anos de idade. Lamentavelmente terminada nas Caldas da Rainha, na corrida do 15 de Agosto, quando alternava com João Núncio em 1959. Nessa corrida sentiu-se mal e veio a falecer vitima de um ataque cardíaco.
Longa carreira com um particular significado para a história da tauromaquia nacional e mundial.
Simão da Veiga Jr., despertou um enorme entusiasmo aos aficionados, pois disputou com as grandes figuras do toureio uma competição nas arenas que mobilizava multidões. Primeiro com o primeiro rejoneador espanhol António Cañero, depois com essa grande figura do rejoneo que foi Álvaro Domecq Y Diez e sobretudo durante essas duas décadas de ouro da tauromaquia nacional de 40 e 50, com João Branco Núncio.
Seu pai, Simão da Veiga, tinha sido um mestre no toureio apeado, desde tenra idade, pois apresentou-se pela primeira vez, quando tinha apenas 14 anos de idade. Actuou inúmeras vezes desde essa data em inúmeras praças do país. Mas o seu profundo sentimento artístico começou a ter expressão na pintura, onde deixou uma obra muito importante e reveladora de grande talento.
Simão da Veiga está retirado das arenas durante vários anos, mas reaparece a chefiar um movimento que pretendia dar um novo rumo à tauromaquia nacional, no ano de 1921.
Em 1922, preparava-se a alternativa de seu filho e discípulo. Simão da Veiga decide ele próprio tirar a alternativa, para poder ser ele o Padrinho de seu filho. A cerimónia de alternativa de Simão da Veiga, que tinha já 43 anos de idade, foi numa corrida do Campo Pequeno, no dia 2 de Maio de 1922. O seu Padrinho foi o grande José Casimiro.
Dois meses e dois dias depois ele atribuía a alternativa a seu filho.
Até 1934, pai e filho actuaram inúmeras vezes juntos em Portugal e em Espanha.
Simão da Veiga Júnior foi ainda o primeiro português a cortar uma orelha na Praça de Madrid, numa célebre corrida, em que se apeou para rematar a excelente faena com muleta e matando com uma estocada inteira e redonda. O desaparecimento de Simão da Veiga das arenas deixou um lugar que nunca mais ninguém conseguiu preencher. No entanto o nome da sua família continuou por muitos anos, a ser inscrito nos cartazes. Seu sobrinho Luís Miguel da Veiga despontaria de imediato como o mais promissor cavaleiro tauromáquico e manteve-se como figura do toureio, todo o restante século XX.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Criação do Toiro Bravo (1)


Em Portugal - 1ª Abordagem – Dos Toiros Corridos aos Toiros Puros:

A selecção de Toiros Bravos, tendo em vista a Corrida de Toiros nos moldes modernos, tem o seu início a partir de meados do século XVIII. Praticamente todas as Ganadarias de Toiros de Lide portuguesas e espanholas têm uma base comum em duas ganadarias espanholas dessa época: a do Conde de Vistahermosa (1770) e a de Vicente Vasquez (1780). A evolução do toureio apeado e equestre veio a determinar esta opção de base de selecção e, assim, o antigo Toiro português não tem, mesmo em Portugal, condições de utilização tauromáquica actualmente.
Mas, nos finais do século XVIII, já havia ganadarias que produziam toiros bravos em Portugal, de que são exemplos a da Casa Cadaval e a de Rafael José da Cunha.
Mas a ganadaria mãe de muitas outras que apareceram no século seguinte no nosso país foi a Ganadaria do Infantado. Ela era também de origem espanhola, porquanto resultou duma oferta de uma manada de vacas bravas, feita pelo Rei Fernando VII de Espanha a D. Miguel I de Portugal.
A divisão da Casa do Infantado, decretada pela rainha D. Maria e a sua divisão e venda em hasta pública, veio a originar o aparecimento de muitos novos Lavradores no Ribatejo e muitos deles passaram a dedicar-se à criação de toiros para os espectáculos tauromáquicos, que então tiveram uma fase de grande expansão. D. Miguel foi assim na história da tauromaquia portuguesa figura eminente e primordial, como criador de toiros de lide e como promotor da Festa dos Toiros.
No entanto há um fenómeno interessante que é eminentemente português e que perdura nos nossos espectáculos por mais de cem anos. O número de corridas que se realizavam nos meados do século XIX era muito superior à capacidade de oferta de toiros pelos criadores de toiros de lide. Assim, passou a ser vulgar costume em Portugal que o mesmo toiro fosse «corrido» por diversas vezes e em certa medida a «bravura» dos toiros e até a sua escolha como «semental» era medida pela capacidade de um toiro manter as investidas e condições de lide, nas diversas vezes que entrava em praça.
Ficaram célebres vários toiros, que me recorde o “Capirote”, da ganadaria do Dr. Guisado e adquirido pelo cavaleiro José Bento Araújo, que foi lidado 32 vezes e que chegou a ser anunciado com destaque em corridas do Campo Pequeno, ou o “Quinze”, da ganadaria de Francisco Lima Monteiro, que tinha esse nome porque foi corrido 15 vezes e que ficou alguns anos como semental da manada por ter tantas vezes demonstrado a sua bravura.
Nos primeiros anos do século XX ainda era vulgar serem lidados, nas praças portuguesas, toiros corridos. Isso perdurou até aos anos 20 ou 25.
Este costume, que representa uma forma muito peculiar e exclusivamente portuguesa de apreciar a corrida de toiros, não tinha obviamente condições de preservação e as exigências do toureio moderno acabaram por se impor. Isso veio a contribuir muito para o aparecimento de novas ganadarias com um base espanhola, que se impuseram no panorama mundial, das quais merecem destaque as de José Palha Blanco e de Emílio Infante da Câmara.
A inauguração do Campo Pequeno e a vinda a Lisboa das principais figuras da tauromaquia mundial, foram determinantes para a alteração desta forma peculiar de encarar o espectáculo dos toiros.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A última Corrida no Campo de Santana


A última Corrida na Praça do Campo de Santana ocorreu a 6 de Dezembro de 1887. Tourearam essa Corrida os cavaleiros Casimiro Monteiro, Alfredo Tinoco, José Bento Araújo e D. Luís Rego e os toiros pertenciam aos ganaderos Roberto & Irmão.

A praça foi posteriormente interdita, pois já não oferecia condições de segurança para o público. Tinha sido inaugurada a 3 de Julho de 1831 e, durante esses anos, foi o principal palco de expressão tauromáquica de Portugal.

O facto de a sua última corrida se ter realizado no mês de Dezembro é perfeitamente elucidativo da grande dinâmica que os espectáculos taurinos tinham em Lisboa naquela época. De 1887 a 1892 -data da Inauguração do Campo Pequeno- a cidade de Lisboa não teve praça de toiros.
As primeiras Alternativas, dadas em Portugal, aconteceram precisamente nesta Praça de Toiros. Foi uma época de grande desenvolvimento das Corridas e onde se consolidou o modelo das actuais corridas de toiros portuguesas.

As grandes referências de cavaleiros toureiros do século XIX, foi aí que iniciaram as suas carreiras e foi aí que tiveram os seus maiores momentos de glória. Muitos foram os grandes artistas que animaram esta Praça e contribuíram para a consolidação da aficion lisboeta: o Conde do Vimioso; o Marquês de Castelo Melhor; Carlos Relvas; Vitorino Frois; José Bento Araújo; Alfredo Tinoco da Silva; Manuel Casimiro de Almeida; Fernando de Oliveira, entre muitos outros.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Corridas de Toiros


A razão de ser da utilização desta terminologia é comum a Portugal e Espanha. Desde as Festas Reais que os Toiros «corriam» pelas ruas em direcção ao local dos festejos.
Em Portugal, após a proibição da morte de toiros, decretada pelo Marquês de Pombal em consequência da dramática Corrida de Salvaterra, os toiros depois de lidados eram largados novamente para a rua para gáudio popular.
Nasceu assim essa tradição, que se preserva em muitos lugares, dos «encierros», das «entradas», das «esperas» e das «largadas». Foi esta participação popular nas Festas Tauromáquicas dos Festejos Reais e aristocráticos que muito contribuiu para o enraizamento das actividades tauromáquicas no sentimento e no gosto popular.
O Toiro, esse animal místico e feroz, não era apenas um privilégio das caçadas e das façanhas dos grandes senhores, mas de qualquer um que podia mostrar nessas ocasiões a sua coragem e destreza.
Os grandes festejos reais eram normalmente realizados nas praças mais simbólicas das capitais dos Reinos. Em Lisboa no Terreiro do Paço, em Madrid na Plaza Mayor, em Sevilha na Plaza de S. Francisco. A participação popular nesses festejos antes e depois, representa assim a mais importante fonte da afirmação da Festa.
O Povo adoptou para si uma tradição aristocrática.
A construção das primeiras Praças de Toiros teve tudo isto em atenção. Foram construídas às portas das cidades para permitir estas actividades populares.
O Arenal de Sevilha e a própria Maestranza, a Praça das Portas de Alcalá de Madrid, a Praça de S. Domingos em Santarém e a Palha Blanco em Vila Franca, são disso exemplos.
Praças algumas delas que já não existem mas que foram símbolos do início do toureio moderno, quer em Espanha quer em Portugal.
Algumas curiosidades sobre as Praças simbólicas da Tauromaquia irão também ser descritas neste Blog.
Comecemos pela mais antiga. A Praça das Portas de Alcalá em Madrid.
Construída em 1754, a última Corrida aí realizada foi em 16 de Agosto de 1874.
Nesses 120 anos realizaram-se aí 2.548 Corridas de Toiros, lidaram-se e mataram-se 23.056 Toiros. Nela perderam a vida 18 Lidadores.
Oito eram Picadores, quatro subalternos e seis Matadores.
Entre estes, Pepete e Roque Miranda, mas também o célebre Pepe Illo, cuja morte em praça veio a ter um impacto muito forte, que impressionou toda a Península Ibérica e constitui um marco decisivo na História da Tauromaquia.